Em pleno Mercado do Bolhão, não se vendem apenas produtos frescos ou flores. Quem desce a escadaria principal encontra, do lado direito, a banca do André Amolador, que se dedica, em parelha com a mulher Susana, a dar a conhecer uma "profissão em vias de extinção", mas que continua a suscitar interesse e curiosidade. A determinação de ver o ofício ser reconhecido venceu e o seu nome consta, agora, na Rede Nacional do Património Cultural Imaterial.
"Este passo é muito importante para mim, mas quero ir mais além", conta André Fernandes, que tem o sonho de ver a sua arte ser distinguida como Património Cultural Imaterial da UNESCO. O que o comerciante não esperava era ter ajuda na busca por esse sonho. O amolador foi, esta sexta-feira, surpreendido com uma visita do presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, que garante: a autarquia "vai apoiar o processo de candidatura desta arte tradicional".
"Há profissões que ajudam a contar a história das cidades, e esta é uma delas. O André mantém viva essa história, todos os dias, com muito trabalho e dedicação", felicita Pedro Duarte, lembrando "que preservar o nosso património é proteger os saberes e as pessoas que dão alma ao Porto".
Por agora, André Fernandes vê o seu nome listado na Rede Nacional do Património Cultural Imaterial, que funciona como uma plataforma informal de partilha de conhecimento, experiências e boas práticas.
A resiliência em provar que a arte de amolar facas ainda é mais do que uma tradição fez com que André e Susana se lançassem numa candidatura que, rapidamente, teve resposta positiva. "Esta foi uma ideia da minha esposa, à qual acatei com força e quis levar para a frente", revela o amolador – um dos mais jovens do país.
"Costuma-se dizer que por trás de um grande homem, está uma grande mulher. Eu digo sempre que a minha esposa está sempre ao meu lado e por vezes à frente", admite, lembrando que foi em sintonia com a mulher que o seu ofício foi ganhando cada vez mais reconhecimento, tendo consolidado a marca registada e certificada André Amolador.
Por se tratar de "uma profissão que está em vias de extinção", André não se cansa de tentar "abrir novos horizontes" e reinventar-se dentro daquilo que é a sua arte. Atualmente, além de ser amolador, também se dedica ao conserto de guarda-chuvas e à cutelaria artesanal – uma das vertentes que mais chama à atenção dos visitantes do mercado.
Apesar do negócio ter tido origem pela mão do avô, e ainda manter fidelizados clientes de há várias décadas, André admite que também é da atividade turística que o seu trabalho vive.
"I’m the queen of the market [Sou a rainha do mercado]", apregoa Susana com uma coroa na cabeça, chamando à atenção de um casal de turistas norte-americanos. "Ela ajuda-me na parte da venda, eu estou mais dedicado ao serviço na prática", revela André, dando conta de como decorrem os dias ao serviço do mercado histórico.
Se agora a rotina nas bancas 29 e 30 do Bolhão se centra em André e Susana, no passado era diferente. Por trás dos expositores com facas, navalhas e tesouras que apresenta aos clientes, há uma porta que esconde um mural onde consta toda a história da família de amoladores.
Com orgulho, o amolador conta que a paixão por esta arte começou com o seu avô, que, em 1985, já era protagonista de uma reportagem no jornal "O Comércio do Porto".
A notícia é exibida com vaidade na oficina de trabalho e atesta que o talento da família corre no sangue dos Fernandes há várias décadas. Seguiu para o pai de André e, agora, está nas suas mãos. Antes, teve "muitas profissões", foi até padeiro, mas "o dever" chamou-o quando menos esperava.
"Em 2013, foi quando assumi a posição de estar sozinho aqui. O meu pai faleceu em 2007 e quis dar continuidade a esta profissão", recorda, lembrando que, "desde os tempos de escola", foi aprendendo o ofício de que hoje se orgulha.
"O meu pai tinha gosto que um dos filhos continuasse", explica André, que assume a convicção de ver o negócio perdurar no seio da família. Apesar de ter uma filha que já se mostra interessada no ofício, o amolador garante que o único desejo que tem para os dois herdeiros é que "sejam felizes".
Para já, garante, o som da flauta vai continuar a ecoar no Mercado do Bolhão.









